A chuva

Cláudia Chaves • 20 de fevereiro de 2026

     A chuva

     Final de ano e início do outro, normalmente, é um período chuvoso. Todos os anos os jornais noticiam alagamentos, deslize de encostas, buracos no asfalto provenientes do grande volume de água. Tornou-se hábito olhar a previsão do tempo ao programar uma viagem ou simplesmente para saber como ficará no final de semana. A previsão do tempo ganhou um espaço até nos jornais, apesar da previsão estar constantemente na tela do celular. A Alexa mostra, na tela inicial, como está o tempo naquele dia e, se perguntar a ela como ficarão os próximos dias, a resposta vem com precisão.


     Há uns anos, quem é de Minas Gerais sabe disso, a referência para ver como ficaria o tempo era a “Folhinha de Mariana”. Curiosamente, esse calendário é distribuído no final de ano, para o ano seguinte, como normalmente acontece com os calendários. Não sei a fonte, mas a “Folhinha de Mariana” traz informações sobre o tempo, as fases da lua, épocas de plantio, hora do amanhecer e anoitecer e também o calendário litúrgico, com as leituras bíblicas diárias e o nome do santo daquele dia. E não é que a “Folhinha” acerta sobre a previsão do tempo? Talvez pela proximidade com as coisas do alto e com São Pedro. Informação privilegiada.


     Quando estou em casa, e está chovendo, tenho o hábito de me sentar na lateral da cama, no quarto de frente para a rua, e ficar ali olhando, moro no primeiro andar de um prédio de apartamentos. O prédio fica de frente para uma rua íngreme, de onde dá para ver a água descendo o morro, pessoas escondendo-se nas garagens, aguardando a chuva passar ou diminuir para, finalmente, chegar ao local que a chuva, na sua magnitude, interrompeu. Meu filho mais velho também adquiriu esse hábito e costuma me fazer companhia. Recentemente, ele disse mais ou menos essas palavras: a chuva é para nos lembrar da condição de humanos e explicou, com muito bom humor, o entendimento dele a respeito.


     Fiquei refletindo sobre essa conversa, realmente não há o que fazer, se a pessoa está com sombrinha ou guarda-chuva dá para seguir o percurso, mesmo com alguns ou muitos respingos. Mas, tem hora que nem sombrinha nem guarda-chuva resolve, então, é parar e esperar. Uns, enquanto aguardam, sacam o celular e ficam ali, observando a tela. Outros, olham para um lado, para o outro, para cima, num único pensamento: quando é que essa chuva vai passar?


     Nós, humanos, temos a mania de querer controlar tudo, o tempo (cronos) torna-se relativo com um controle remoto nas mãos, mas, com a chuva, não tem como, ela é soberana, cai leve, a chamada “morrinhenta” que fica na vagareza o dia todo, dando uma cara de preguiça ao dia. E tem aquela que chega, chegando, desaba forte não considerando nada nem ninguém.


     O “domínio” sobre a terra é relativo, num jogo de causas e efeitos.


     E a chuva segue, majestosa, relembrando, de tempos em tempos, a nossa “hipossuficiente” condição de humanos ante os efeitos naturais.


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